Jornalistas da Gaucha, David Coimbra e Kelly Matos pedem perdão pelos comentários irônicos ao assalto em Criciúma

Não relativizei a ação dos bandidos. Não os glorifiquei, como algumas pessoas pensaram. Mas elas pensaram. Então, errei. E por isso peço desculpas

 

O Grupo RBS pediu desculpas pelo ocorrido e declarou que “não houve intenção de minimizar a gravidade da ação criminosa e de ofender as empresas, os cidadãos e os policiais que foram feridos”. “A linha editorial da RBS nos assuntos de segurança busca auxiliar cidadãos e empresas a se protegerem e valoriza as forças policiais na defesa da lei e da sociedade”, ressaltou em nota.

O Delegado da Polícia Civil, William Garcez, comentou o fato em um vídeo; assista

Estávamos em 2017, na primavera fria de Boston, quando recebi uma visita intrigante: um empresário gaúcho que eu não conhecia e que queria muito falar comigo. Era um homem enérgico, que se expressava com a confiança dos que enxergam o futuro. Seu nome: Leonardo Fração.

Nos reunimos no restaurante de um hotel perto da minha casa e tivemos uma conversa agradável. Leonardo apresentou-me um projeto para melhorar a segurança pública no Rio Grande do Sul. Achei a ideia maravilhosa, arrisquei-me a fazer alguns palpites e garanti que sua iniciativa teria todo o meu apoio. Esse projeto se transformou no Instituto Cultural Floresta, que tanta ajuda deu à segurança pública do Estado, e, felizmente, continuará dando.

O apoio ao Instituto Floresta é, de certa forma, o corolário de toda a minha atuação como jornalista nessa área específica. Porque a valorização da segurança pública sempre foi um dos meus temas preferidos. Tenho cá uma frase que volta e meia repito, de que, se resolvermos os problemas de segurança, resolveremos 70% dos problemas do Brasil. É no que acredito, não apenas por conhecer bem o meio, desde os meus tempos de repórter de polícia, mas também pelo que experimento como cidadão.

Sei que o cidadão não suporta mais ter medo de sair à rua, de levar o filho para brincar numa praça, de rodar com seu carro à noite. Também sinto esse medo. Sem segurança, o cidadão perde sua própria cidade. Viver em segurança é mais do que um alívio; é uma bênção.

Nos últimos dias, o mundo desabou sobre minha cabeça, depois de um comentário que fiz no Timeline, da Gaúcha, a respeito dos assaltantes que atacaram Criciúma. Era um comentário irônico, provocativo, semelhante a tantos outros que fiz na minha trajetória. Mas muitas pessoas não entenderam assim, entenderam que falava a sério, ficaram furiosas comigo e com a minha companheira do Timeline, a Kelly Matos, que não teve responsabilidade nenhuma neste caso. A responsabilidade é toda minha, quem levantou o assunto fui eu, e a Kelly apenas fez algumas observações para ilustrar o que eu dizia. 

Foi terrível que isso tenha acontecido, me senti muito mal. Ainda me sinto. Porque, se as pessoas não entenderam que estava fazendo uma ironia, a culpa não é delas. É minha.

 Nunca louvei bandidos, nunca. E não poderia louvá-los justamente quando atacaram uma cidade que amo. Vivi um pedaço da minha vida em Criciúma, tenho lá amigos que são mais do que amigos; são irmãos. Fiquei horrorizado quando a cidade foi sitiada, e escrevi isso em GZH. Sofri quando vi os vídeos das pessoas aflitas, sofri quando meus amigos criciumenses me contaram o que passaram. E sofri ao saber que um PM foi baleado à covardia. Não relativizei a ação dos bandidos. Não os glorifiquei, como algumas pessoas pensaram. Mas elas pensaram. Então, errei. E por isso peço desculpas. Assumo o fardo desta responsabilidade e reforço que ela é só minha. Minha culpa, minha máxima culpa.

Kelly Matos pedido de perdão:

Na quarta-feira (2), eu e meu amigo David Coimbra fomos infelizes ao fazer uma ironia — mal feita, sem nenhuma graça — sobre assaltos a bancos e a conduta dos criminosos. Ofendemos, de maneira muito equivocada, os irmãos catarinenses, os policiais por quem tenho tanta admiração e respeito (herança do seu Vitorino) e as instituições bancárias, que aliás também merecem a mesma consideração.

Com razão, ouvintes nos apontaram os dedos. De forma enfática, disseram que erramos. Sublinharam que, ao dizer o que dissemos, contribuímos para uma idolatria absolutamente sem sentido de criminosos que merecem ser punidos. No Brasil que chora pela violência praticada contra as famílias e seus cidadãos diariamente, nenhum assalto merece, jamais, ser aplaudido. Nem de brincadeira. Não tem a menor graça.

E, sim, caro leitor e cara leitora, quero dizer com todas as letras aqui para você: eu errei. Errei ao não interromper um colega, errei ao rir de uma ironia sem a menor graça, errei ao citar a frase que atribuí a um filme como se um ataque a banco pudesse merecer glória ou aplauso de quem quer que seja. Me coloquei no lugar da família do policial atingido, dos familiares e dos próprios reféns que agonizaram na mão de criminosos e de meus conterrâneos que sofreram com um ataque bárbaro e sem escrúpulos. E ali vi o tamanho da infelicidade. Eu errei. E peço desculpas sinceras por isso.

Pedir perdão não apaga em nada o que fizemos. É apenas um movimento na direção daquilo que considero um caminho correto — para o qual eu não rumei naquele dia, durante nossa fala no Timeline. Logo eu, que tenho a defesa da vida como um dos meus princípios mais caros. Que faço do respeito ao ser humano um dos meus propósitos diários, independente de quem seja o outro. Eu errei e falhei no meu compromisso em promover o respeito ao meu semelhante.

Hoje, após o episódio triste e lamentável que protagonizamos, eu quero me solidarizar com cada uma das pessoas que passaram pelo horror que foi aquela madrugada em Criciúma. Com mães, pais, filhos e filhas. Como os integrantes do 9º Batalhão de Polícia Militar. Com os trabalhadores das instituições bancárias.

Quero pedir desculpas às famílias dos reféns e do policial de Santa Catarina. Aliás, dizer aos policiais — catarinenses e gaúchos — que tenho imenso orgulho da missão que desempenham com alma e coragem contra bandidos que nos roubam o direito ir e vir, que dilaceram famílias a partir de latrocínios e homicídios, que roubam a infância de meninos e meninas levados pelo tráfico, que destroem o sonho de empreendedores por causa do cenário de medo e insegurança.

Também quero me desculpar com meus conterrâneos. Com todos aqueles que caminham comigo na direção de um mundo mais justo. Não sei se o gesto, de alguma forma, pode reduzir o peso do que eu e David dissemos. Mas é um pequeno passo na construção de um caminho de afeto, humildade e de tolerância, tal como meu avô gostaria que eu fizesse.

Não há como rir em uma sociedade que assiste diariamente a mortes violentas, sem que consigamos reverter as estatísticas. Não há, nem em sonho, espaço para ironia diante do esforço gigantesco de agentes da segurança — policiais civis e militares — para transformar o mundo em que vivemos em um lugar melhor, combatendo a criminalidade e protegendo a vida de gaúchos e catarinenses. Erramos. E, diante do erro, não há outro caminho que não seja o da humildade. Peço perdão. E reitero meu reconhecimento às forças policiais que atuam em prol dos cidadãos. Perdão.

 

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